Treinar Futebol com categorias menores

Por Danilo Benjamim, Treinador da categoria Sub 11 do Coritiba Football Club

Danilo
Danilo Benjamim, Treinador do Sub 11 do Coritiba

Skank, macarrão, O último Samurai, Roma e bicicleta! Essas são algumas de minhas preferências. O quê?! Não entendeu? Não era isso o que estava perguntando? Acho que forneci algumas respostas para perguntas que não foram feitas…

Imagino que o leitor tenha ficado um pouco confuso com o início deste texto e a intenção é justamente essa. Você, leitor, provavelmente, iniciou a leitura deste texto buscando informações sobre Futebol, porém deparou-se com algumas palavras desconexas, ficou confuso com isso, assim como inúmeras crianças/atletas que recebem a cada sessão de treino várias respostas para perguntas que não foram feitas. Vão em busca de Futebol e, na maioria das vezes, é o que menos encontram. Alguém aí já fez o exercício de questionar seus atletas sobre o que desejam e/ou precisam com o treinamento? Ou já possuem uma cartilha pronta do que se fazer em cada sessão de acordo com a idade? Não seriam os currículos documentos para orientar e não limitar a ação do treinador?

El Sistema. Este é o nome de um projeto fundado na Venezuela em 1975 por José Antonio Abreu, um Maestro que há 40 anos se dedica a ensinar música a crianças. O projeto começou com crianças venezuelanas em situação de vulnerabilidade social, hoje está presente em todos os continentes do globo ensinando música (e muito mais através dela) a crianças de todas as idades e classes sociais. A Escola da Ponte, surgida em 1976 em Portugal e idealizada por José Pacheco, é uma escola sem classes ou séries, a aquisição e construção dos conteúdos se dá através dos interesses comuns e do conhecimento prévio de cada um, o professor atua como um mediador e orientador desta dinâmica de aprendizagem. Trago estes dois exemplos (e que poderiam ser mais) para que possamos refletir sobre o que nos limita a ensinar algo, seja música, futebol ou disciplinas escolares, o que nos limita a ir somente até determinador ponto? Por que uma criança de 4 anos não pode aprender a tocar Beethoven ou com 7 anos a fazer equações de segundo grau? Por que crianças de 10 e 11 anos não podem aprender a defender e atacar de forma organizada no futebol? Sua idade e/ou classe social impedem isso? Por que limitamos tanto as possibilidades de nossas crianças dentro de um currículo fechado e pré-determinado? E não estou aqui dizendo então que deveríamos abolir os currículos de formação, mas sim, que estes não sejam usados como limitadores, que os documentos nos orientem e auxiliem, porém, é o nosso aluno, nossa classe, nossa equipe que poderá melhor dizer até que ponto se pode ir num ambiente de aprendizagem.

É claro que existem aspectos fisiológicos de cada indivíduo que são determinantes, e norteadores, para cada etapa do desenvolvimento de habilidades específicas, principalmente no que diz respeito a valências predominantemente físicas, existem períodos sensíveis para se estimular velocidade, força, flexibilidade etc. Porém, estas valências, não limitam a ação do treinador/professor, mas as norteiam! Assim, posso trabalhar um conceito de quebra de linha com minha equipe sub-11 adequando a melhor valência física para o momento, não preciso esperar que cheguem aos 15 anos ou mais para isso. O fato de estimular conceitos coletivos não irá excluir os estímulos individuais (extremamente necessários nas categorias menores) e vice-versa! Faz-se necessário enxergar o futebol além de estímulos individuais ou coletivos, mas em sua totalidade, em sua complexidade, do contrário, o estaremos reduzindo a simples gestos, e por consequência limitando a criatividade e possibilidades de nossas crianças/atletas, os quais ficam tão presentes nos jogos e brincadeiras que realizam (ou realizavam) quando estão distantes dos cabrestos de seus professores/treinadores. Segue um vídeo que ilustra um pouco esta situação, claro, dadas as devidas proporções entre um esporte e outro:

Ao longo do ano de 2015, procurei nos treinamentos da equipe sub-11 do Coritiba Foot Ball Club, conduzir os atletas a sempre refletirem se suas ações eram as mais adequadas para aquele momento, questionando sempre o porquê de terem tomado aquela decisão, sendo assim, não busquei dar respostas prontas aos problemas e nem solucioná-los por eles, mas juntos (treinador+atleta+equipe) buscar as melhores opções para cada situação imposta pelo jogo. É claro que, cada sessão tinha objetivos pré-determinados, porém não fechados, durante o treino novas possibilidades, novas necessidades, poderiam surgir e na medida do possível, já serem inseridas no contexto do treino. Um exemplo simples eram os trabalhos de progressão a baliza do adversário, em nenhum momento se buscava limitar as maneiras de se progredir, mas buscar que vivenciassem várias vezes diversas situações problema para a progressão, e assim, encontrassem várias soluções para isso. Nesta sessão realizou-se um jogo de 5×5, num campo de 45×25 metros, os jogos tinham duração de 3 minutos por 3 minutos de pausa.

exercício 5 x 5 Danilo Benjamim

Num primeiro momento os atletas eram estimulados a discutirem entre si a estratégia que adotariam para vencer o jogo e passada a primeira série, que resultados obtiveram, já num segundo momento a comissão realizou intervenções no sentido de levar a reflexão sobre o que estavam fazendo, se todos da equipe estavam cumprindo a estratégia traçada, e se o que executaram era realmente a melhor opção. Buscou-se questionar, instigar, conduzir para que encontrassem as respostas e executassem as ações mais adequadas para cada situação, levando-se em conta as vantagens, desvantagens e responsabilidades de cada um em cada momento do jogo! Tudo isso sem desconsiderar intervenções quanto a ajustes corporais para execução das ações, posicionamento no campo, melhor opção de batida na bola para passe/finalização, forma de domínio, por exemplo. O jogo é extremamente rico em situações que podem gerar intervenções, cabe a cada um identificar o que no momento é o mais emergencial a se intervir. Seguindo a linha desta atividade, apresento três distintos exemplos de progressão da equipe em jogos válidos pelo campeonato da categoria sub-11:

Pode-se ver que, em cada situação problema, a equipe teve condições de responder (de forma individual e coletiva) positivamente e conseguir progredir até a baliza adversária. Não somente através de trocas de passes curtos, não somente por passes longos, não somente através de jogadas individuais, mas em cada situação demonstraram ter condições de progredir através de diferentes formas, pois, em nenhum momento, foi dada a eles a resposta pronta nos treinamentos, mas a possibilidade de decisão sobre o que gostariam e poderiam fazer, lhes foi dada a oportunidade de criar suas respostas. Não digo aqui que em nada o treinador tem a contribuir, ficando tudo a cargo dos jogadores, mas que o conhecimento seja construído de forma coletiva, com a participação ativa de todos, sendo o treinador o gestor de todo o processo.

Os jogadores brasileiros sempre foram elogiados e reconhecidos mundialmente pela sua capacidade criativa, seu poder de inventar novas jogadas, este sempre foi um dos diferenciais de nosso futebol, por que então não se investir mais tempo neste aspecto? Sobretudo nas categorias menores, neste período de formação da personalidade dos nossos futuros jogadores. Em um dos encontros dos atletas da equipe sub-11 com o maior ídolo da história do Coritiba, Sr. Dirceu Krüger disse a eles: “Vocês precisam ter alegria nas pernas”.  Não seria esta “alegria nas pernas” a criatividade que se espera de nossos jogadores?

Caro leitor, meu objetivo aqui em nenhum momento foi trazer a você respostas para perguntas que não foram feitas. No que tange ao treinamento não há fórmula mágica, cabe a cada um perguntar a si o que deseja, diagnosticar o que seus atletas necessitam e já são capazes de fazer, e assim criar um ambiente que propicie o desenvolvimento de todos respeitando suas potencialidades. Espero ter ajudado você a refletir um pouco, a questionar-se, e assim, buscar as respostas para as perguntas que você mesmo irá fazer.

 

*Danilo Benjamim é treinador de futebol. Atualmente está trabalhando na categoria Sub 11 do Coritiba Football Club. Danilo pensa em um Futebol Inteligente! Um futebol pensado diferente!

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6 opiniões sobre “Treinar Futebol com categorias menores

  1. Muito bom texto Prof° Danilo !
    Há algum tempo ouvi dizer que alguns clubes queriam acabar com as categorias sub 11 e sub 13 a fim de cortar gastos e investir mais nas categorias que podem trazer jogadores prontos para o profissional. Eu discordo, pois no meu entender são nas categorias menores que podemos desenvolver as maiores capacidades do atleta. Enfim, gostei da abordagem, pois ela relata uma das dificuldades do trabalho no futebol atualmente que é permitir possibilidades de tomada de decisão e antecipação dos jovens atletas sem impor a todo momento algo para que eles venham a fazer. Claro que correções e instruções fazem parte do processo, mas a capacidade individual é muito importante.
    Tive a oportunidade de fazer um curso onde você ministrou com o Prof° Rafael Ferreira no Unibrasil. Espero poder encontra-los novamente.
    Abraço .

    1. Olá Rafael!
      Assim como você, discordo de que estas categorias (assim como as outras) sejam “gastos” para o clube, todas deveriam ser sim enxergadas como investimento! Os atletas, quando bem formados na base, chegam ao profissional mais identificados com o clube e com a possibilidade de oferecer um retorno competitivo e financeiro muito vantajoso. E dar aos atletas a oportunidade de que exercitem sua criatividade para o jogo é uma premissa que julgo fundamental em todo processo de formação!
      Obrigado pela lembrança e que nos reencontremos em breve!
      Abraço

  2. Ótimo texto, para quem trabalha nesta área poder contar com pessoas mesmo distante sem conhecer é muito bom pq nos ajuda a abrir a mente, por mais que estudamos e buscamos informações mas contar com a experiencia de profissionais deve nível é fortalecedor.

    1. Obrigado Edgar!
      Acredito que unindo forças conseguiremos fazer um futebol melhor! E toda via de conhecimento é válida, ainda mais quando aliadas, teoria e prática devem sempre caminhar juntas!
      Abraço

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