Entrevista Técnica – Fábio Henrique Matias

Treinador da categoria Sub 17 do Grêmio-RS

Frank de Boer
Fábio Matias com Frank de Boer, ídolo do Futebol Holandês

A nossa Entrevista Técnica neste mês de Dezembro é realmente um “presente de Natal” para você leitor do Futebol Inteligente. Nosso convidado deste mês é Fábio Henrique Matias, treinador de futebol de categorias de base, com grande sucesso em formação de atletas e que nos últimos anos vêm conquistando diversos títulos nas categorias de base pelos clubes os quais trabalha. Fábio, na minha opinião, consegue montar equipes com muitos bons conceitos ofensivos e com grande desenvolvimento individual de seus atletas, o que faz as suas equipes serem muito competitivas e, como consequência, vencedoras.

Fábio é formado em Educação Física pela UNIMEP (Universidade Metodista de Piracicaba) e pós graduado em treinamento esportivo e fisiologia do exercício. Ele iniciou a carreira como treinador de goleiros, depois tornou-se preparador Físico e desde 2008 tem atuado como treinador. Sua carreira de iniciou no Rio Branco de Americana (SP), passou pelo Jataí (GO), Ituano (SP), Guarani (SP). Foi no Guarani que ele recebeu a proposta para se tornar treinador e iniciou a sua vencedora carreira. Depois passou por 3 anos e meio no Desportivo Brasil (SP) na categoria sub 17 e no momento está trabalhando na categoria sub 17 do Grêmio FBPA (RS).

Dentre diversos títulos, inclusive internacionais, destaca-se ter sido Campeão Paulista Sub 17 pelo Desportivo Brasil e Campeão Gaúcho Sub 17 pelo Grêmio.

Eu escolhi trazer a vocês essa entrevista com o Fábio pelo fato de saber que ele poderá contribuir com os seus estudos e ajudar você a formar algumas opiniões em relação a treinamento e categorias de base. Conversei pessoalmente com o Fábio apenas duas vezes, mas o enfrentei algumas vezes e tenho certeza de que é um dos ícones a serem destacados da nova geração de treinadores aqui no Brasil.

Aproveitem a entrevista!

Fábio, como é o modelo de jogo que você mais gosta de utilizar nas suas equipes?

R: Na organização ofensiva ,gosto da valorização da posse de bola, da criação de espaços e permutas posicionais, com tendência para jogo posicionado no campo adversário com muita agressividade no último quarto de campo , utilizo agir e não reagir na grande maioria das vezes, com utilização na perca da bola no campo adversário da retomada forte e indução ao erro. Logicamente que treino os outros momento do jogo (organização defensiva e transições), mas o comportamento de estar com a bola, caracteriza minha forma de jogar , assim quando a perco, busco recuperá-la o mais rapidamente possível. Partindo deste pressuposto básico estímulo a capacidade cognitiva e tomadas de decisões de meus comandados para que sejam, o máximo possível independentes, na ações dentro do jogo, e gerem os comportamento de jogo, treinados durante os treinos, para interação no mecanismo do jogo coletivo.

Seus dois últimos clubes foram o Desportivo Brasil e o Grêmio. Os dois clubes possuem uma cultura de jogo totalmente diferente. Como você fez para adaptar-se de um para o outro, sendo que foi campeão estadual nos dois clubes? A maneira que suas equipes jogavam nos dois clubes foram iguais ou diferentes?

R: A maneira de jogar foi muito parecida, a mantenho como a minha ideia de jogar, hoje temos um Grêmio um pouco diferente de anos atrás, onde a questão de propor o jogo e desenvolver o indivíduo é muito difundida em todas as categorias, isto não me criou dificuldades,vinha de uma cultura de trabalho em que isto estava explícito, o que apresentei no período do Desportivo Brasil e o que foi desenvolvido era muito claro e estava na forma de jogar.Hoje se você assistir um jogo da sub 17 do Grêmio e ter visto uma equipe minha sub 17 do Desportivo Brasil jogar há três  anos atrás irá dizer: Conheço este trabalho/treinador e essa forma de jogar, mas irá observar mudanças em termos de competitividade/ intensidade de jogo/agressividade e a clara evolução nas idéias do jogo(ponto fundamental para nós treinadores) .Tive que me adaptar a jogar no interior do RS, que é muito diferente do que em SP. No interior de SP as equipes jogam o jogo, aqui no Rio Grande do Sul,  elas jogam o jogo da vida contra Grêmio e Internacional, tive verdadeiras “batalhas” aqui em diversos jogos(estádios e campos lotados, pressão de torcida), onde se você em algum momento perder o foco ou a concentração acaba sendo derrotado, mesmo sendo bem superior a grande maioria das equipes. Isso me fez crescer muito e adquirir um equilíbrio em termos pessoais ,relacionadas ao jogo e entender a diferença em termos culturais e comportamentais  destes estados.

Nestes trabalhos os quais você foi campeão, o que você julga ter sido o maior ponto posTivo durante todo o processo?

R: A palavra chave do sucesso do processo está na equipe multidisciplinar. Em todo trabalho de sucesso que tive, tanto no Desportivo Brasil quanto no Grêmio o fundamental foi a  participação de todos , nem que seja de forma miníma, sendo a opinião respeitada e escutada.Eu, como líder da equipe, tenho que estar apto a escutar opiniões e saber diferenciar o que é bom ou ruim, não levando as opiniões para o lado pessoal e sim pensando na entidade/clube e no processo de formação do atleta.Já cometi o erro algumas vezes de não escutar, ou mesmo de outras pessoas em outros cargos, se acharem maiores que a entidade e usarem isto a seu favor em uma decisão, mesmo não sendo a melhor a ser tomada. Encontrar este equilíbrio é um grande desafio e passa pelas escolhas das pessoas, que estarão a frente de cada área e processo, assim hoje digo a todos que perguntam: estou muito feliz profissionalmente em trabalhar no Grêmio FBPA, pois estamos buscando este equilíbrio e este crescimento está aumentando a cada ano.

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Fábio durante partida internacional pelo Desportivo Brasil

Como você pensa ser uma formação ideal de jogadores de futebol? O que trabalhar e como trabalhar?

R: Penso de forma sistêmica e não fractal, principalmente nas idades mais velhas (sub 17 e sub 20), nas idades menores o desenvolvimento motor acompanhado do desenvolvimento técnico, mais o lado, do que chamo de “jogador inteligente” é fundamental.

Sou oriundo da preparação física, assim não gosto única e exclusivamente nas idades menores (sub 11/sub 13/sub 14), do desenvolvimento único e apenas sistêmico.Treinos com caráter analítico nas idades menores são válidos .Nas idades maiores , o desenvolvimento sistêmico partindo do princípio do jogar, como o jogo necessita e o porque deste jogar, é muito importante(formação do jogador inteligente), além da palavra da moda intensidade ,estando sempre presente nos treino.Ainda temos que nos atentar as questões individuais, maturacionais e de desenvolvimento motor, ainda também nas categorias sub 15/sub 17.Então, o treino de finalização/cruzamento/passe,etc…(de forma analítica), com caracterização do modelo de jogo  é  muito válido, ou mesmo algumas variáveis físicas específicas individuais, para determinado jovem atleta, serem trabalhadas de forma isolada também são muito importantes.

Um dos princípios básicos que mantenho na formação, está baseado dentro do conceito do treinamento desportivo:Aquilo que se ganha no período sensível de formação(normalmente entre 11 e 18 anos) relacionado ao desenvolvimento motor, estarão presentes para a vida atlética do indivíduo na idade adulta.Este é um cuidado que acredito que temos que ter no processo de formação.

Você acredita que o jovem atleta deve rodar diversas posições durante a sua formação ou deve especializar-se naquela que ele “aparenta” ser melhor?

R: Esta questão é muito interessante!!! Hoje não vejo o futebol por posição, mas sim por comportamento individuais que posteriormente irão gerar comportamentos coletivos de pequenas associações com outros integrantes da equipe, tais comportamentos devem acompanhar e serem melhorados ao longo do processo de formação.

Um exemplo:abordagem individual defensiva no 1 x 1,2 x 2, 3 x 3, este comportamento para este tipo de situação deve ter princípios básicos que todos indivíduos independente da “posição” devem ter: posição do corpo e perna de apoio, direcionamento de marcação, redução do espaço entre a bola/adversário.

Logicamente que teremos aqueles que terão mais qualidades para finalizar, outros em cruzar , outros em defender, outros em dar assistências, isto será potencializado para determinada posição, mas os comportamentos de jogo são de fato para mim, muito mais importante na formação do que a caracterização da posição.

Mas nas idades menores sub 11/sub 12/sub 13/sub 14 gerar comportamentos e não especializar totalmente a posição(zagueiro é zagueiro pra sempre) e sim dar um vasto repertório de experiências para estes jovens é fundamental. A partir do momento que o processo, se dá em continuidade até a sub 17, começaremos a ter uma pré especialização para a posição, mas mesmo assim devemos ter em nosso planejamento de conteúdo, atividades que proporcionem trocas de experiências em outras”posições de jogo” e a partir do momento da chegada ao profissional passando pela sub 20, talvez sim reduzir este leque de opções , tendo já uma total pré- definição por uma , duas ou até três posições específicas de jogo.

Na minha opinião os grandes clubes de futebol do Brasil ,como sugestão deveriam estruturar desta forma suas escolinhas e times de base

Futsal ou futebol de cincoFutsal e Futebol de 7Futebol 9Futebol 11
 

Escolinhas de 6 a 10 anos

 

Sub 11/12

 

Sub 13

 

Sub 14 em diante

Só jogariam competições de futebol  11 a partir dos 14 anos, abaixo disso , promover “festivais”  com regras específicas para desenvolvimento motor , técnico e cognitivo destes jovens atletas.

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Fábio passa aos seus atletas informações durante competição internacional

Fale-nos um pouco sobre treinamento. Como você estrutura as suas sessões? 

R: Estruturo em três momentos uma sessão de treino : Aquecimento/sub princípios(comportamentos de jogo)/grandes princípios. Não gosto do quarto momento, que alguns utilizam como complementar, pois normalmente o jovem atleta está estafado, desconcentrado e com as contrações musculares rápidas,  está mais propenso a lesões devido a fadiga  muscular e no sistema nervoso central .

No aquecimento, tento com o preparador físico trabalhar alguns conceitos específicos de ativação pré treino, que possa utilizar como ativação para o treino a seguir, um grande desafio ainda pois este “link” com a parte principal deve estar altamente integrado ao trabalho(tempo de duração de 15 a 30 min, dependendo do objetivo da sessão);

No sub princípios de jogo, trabalho comportamentos situacionais individuais ou com pequenas sociedades(ex:linha de 4 x 1 defensiva x linha de 2×3 ofensiva), normalmente em pequenos jogos, onde está incluso os princípios fundamentais da organização defensiva/ofensiva e transições  ( tempo de duração de 20 min) com séries de trabalho e pausas que gerem intensidade, velocidade de reação e tomadas de decisão rápidas);

Nos grandes princípios , trabalho em dimensões maiores com a inclusão de sociedades maiores entre as três zonas básicas de jogo (defesa/meio/ataque) ou quatro zonas  de jogo(defesa/meio defensivo/meio ofensivo/ataque) , utilizando-se também da inclusão dos corredores de jogo(corredor esquerdo/corredor central esquerdo/corredor central direito/corredor direito) – tempo de duração entre 30 e 40 minutos com séries de trabalho e pausas que gerem intensidade alta na sessão de treino.

Algumas vezes, temos apenas dois momentos de sessão do treino, que é caracterizado por sessões de recuperação, pré jogo e primeira sessão da semana,ou mesmo na sessão, o sub princípio estando integrado ao aquecimento não trabalhando desta forma apresentada acima todos os dias, mas ela é meu norteador básico na construção do meu desenho de treino diário.

Acredito no treinamento de força baseado na estruturação funcional, mas acho importante ainda sessões de musculação específica para gerar, outras variantes de força necessárias para o desenvolvimento motor do jovem atleta, e as mesmas são incluídas na sessão de treino no  primeiro momento.

Você acredita que trabalhar com jogos é fundamental para o desenvolvimento do seu trabalho?
R: Sim fundamental, como citado acima os jogos conceituais(comportamentos individuais  e coletivos de jogo)/jogos específicos (similar ao jogo formal) devem estar presentes no trabalho e planejamento semanal .

Como você estrutura sua semana de treinamentos?

R: Uma semana básica com jogos aos sábados normalmente tem essa estrutura:

Microciclo Fabio Matias

Os tempos de treino equivalem a duração total de cada momento, e assim caracterizo minhas sessões com atividades pausadas e números de séries , de que forma consiga manter alto nível de concentração e intensidade nas atividades, evito ultrapassar o tempo aproximado de  80 min na sessão de treino , tendo este tempo com balizador o jogo que é caracterizado por dois tempos de 40 min + acréscimos na categoria sub 17.

Analisando o Futebol brasileiro em geral, como você está vendo o desenvolvimento do jogo na categoria profissional aqui no Brasil?

R: Vejo ainda com restrição, pois são jogos “pouco chamativos aos olhos  do torcedor”  e mais ainda, pra nós que trabalhamos com futebol. Um futebol ainda algumas vezes desorganizado em campo, onde se espera que somente o talento individual defina o jogo, mas logicamente com algumas exceções de equipes com treinadores com idéias e conceitos de jogo bem definidos que ja começam a fazer sucesso no futebol profissional.

GREMIO 5

O que você acredita que podemos melhorar aqui no Brasil, em relação ao jogo de futebol?

R:Na base? Darmos continuidade no processo,estamos melhorando nosso jogo de futebol principalmente na base, a teoria que só o talento resolve foi por água abaixo, nosso  jogo está mais organizado, intenso, mas o problema está no processo de desenvolvimento de nossas crianças, hoje temos uma educação física escolar que regrediu ao longo dos anos, por falta de investimento e estrutura.Nossas crianças não vivenciam, o que as crianças de 30 anos atrás vivenciaram pela questão da violência urbana , não temos mais o futebol  e as brincadeiras tradicionais na rua.Este é o grande problema que enfrentamos no futebol e para as coisas acontecerem os clubes terão que compensar esta situação.

Qual mensagem você gostaria de deixar para todos os leitores aqui do nosso site?

R: Para mim a palavra  conhecimento, tem um significado muito especial e a resumo em três ótimas frases:

Conhecimento não é aquilo que você sabe, mas o que você faz com aquilo que você sabe. (Adous Huxley)

O conhecimento dirige a prática ; no entanto a prática aumenta o conhecimento.(Thomas Fuller)

O segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento é a humildade.(Ernest Hemingway)

Para os leitores deixo estes três pensamentos acima, com a ideia sempre de adquirir conhecimento, aprender com os mais velhos, escutar os mais novos e respeitar toda e qualquer opinião, pois não existe uma receita única para o sucesso e lembrar que nós que vivemos com o esporte, estamos sempre próximos da linha da insegurança, medo e do fracasso e que isto faz com que sempre estaremos buscando em nossas vidas novos desafios e é nosso motor de arranque para grandes conquistas!!!

 

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