A Psicologia e o Futebol

Será mesmo que “de psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco”?

Psicologia futebolEntra ano e sai ano e o que mais escuto durante a vida é: deve-se estudar. Quando crianças, ouvimos que “quem não estuda, vai puxar carroça…” ou então “o único legado em nossas vidas é o conhecimento”. Para mim isso é um FATO! Nada de novidade.

Dentro desta abordagem ouvimos muito no futebol neste ano as palavras reciclagem, aperfeiçoamento, ano sabático, atualizar-se, entre outras. Uma das coisas que me pergunto muitas vezes e quero compartilhar aqui com vocês é: Como estudar?

Vejo muita gente dizendo que estuda vendo jogos. Outras, pela internet, lendo as notícias e tentando manter-se atualizado com as informações cotidianas. Fazendo estágios de acompanhamento de alguns dias. Conversando e trocando experiências. O que você acha disso?

Para mim são todas situações válidas e que não devem ser descartadas, jamais! No entanto, estudar é buscar conhecer mais afundo certos assuntos, certos temas. Ler livros, fazer anotações, buscar soluções para o seu dia a dia através de literatura. E não digo livros de biografia, digo livros de matérias específicas, matérias essenciais ao Esporte. Estudar treinamento,  estudar pedagogia, estudar psicologia, estudar sociologia, estudar filosofia, estudar ciências humanas, ciências biológicas, entre tantas outras possibilidades. E somar a esses estudos uma prática cotidiana, tentando evoluir, mudar algo, tentar fazer crescer a sua ideia e seu conhecimento, transformando-o em prática.

E você me pergunta: OK! Legal! E cadê o tema de psicologia no tema ali em cima?

Então, vou começar do começo. Sempre tive uma forte tendência a gostar do lado Humano do Esporte, tendo uma boa inclinação para estudar Psicologia esportiva e gestão de pessoas. Durante a minha faculdade (Bacharelado em Esporte, na USP) tive a oportunidade de participar do laboratório de psicossociologia do esporte e ser aluno bolsista da CNPq (Empresa de fomento) sobre Psicologia do esporte, estudando fatores motivacionais com categorias de base no futebol. Apesar de meu trabalho ter sido voltado para motivação no esporte, estudei muito mais que isso. Estudei, dentre muitas coisas, liderança, ansiedade, concentração, estresse…  Muita coisa que julgo útil durante toda a minha carreira.

E durante a minha faculdade tive o prazer de conhecer o Prof. Dr. Antonio Carlos Simões, que é o responsável pela disciplina de psicologia esportiva na Escola de Educação Física e Esporte da USP. O professor Simões veio depois se tornar meu orientador e um grande amigo. Muitos alunos que passam por aquela escola talvez não tenham a felicidade que eu tive de poder ter um contato maior com ele e aprender muito sob a sua supervisão.

Antonio Carlos Simões
Prof. Simões, grande experiência na prática do esporte e no mundo acadêmico

Para quem não conhece, o Prof. Simões foi durante muitos anos treinador da Seleção Brasileira de Handebol (Masculino). Foi multi campeão por clubes. Foi medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Havana e o primeiro treinador a levar o Handebol masculino brasileiro aos Jogos Olímpicos (1992, em Barcelona). Toda vez que eu entrava em sua sala, olhava atentamente para um quadro pendurado em sua parede o qual estava sendo premiado pela medalha de prata dos Jogos Pan-americanos por Fidel Castro, que o cumprimentava e colocava a medalha em seu pescoço no momento em que foi tirada a foto. É um símbolo que eu sempre admirava e que me faz cada vez mais ter vontade de crescer e um dia, “chegar lá”. O professor Simões “chegou lá”. No topo!

Além de guiar meus estudos, tive o privilégio de sempre ouvir suas histórias e compartilhar experiências esportivas, tanto as dele com enorme carreira, como as minhas de iniciante ainda. Dentre muitas coisas que pude aprender com ele uma me marcou bastante: A IMPORTÂNCIA DE SE TRABALHAR COM UM PSICÓLOGO ESPECIALISTA EM ESPORTE.

Volto para a frase do subtítulo deste texto: De psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco. Por mais que você estude psicologia esportiva, por mais que tenha uma vivência muito boa na área, você treinador, não é um psicólogo especializado em Esporte. Não tem essa de que todo mundo entende um pouco de psicologia. Fazer uma simples dinâmica de grupo, de vez em quando, não fará sua equipe ser mais unida ou então fazer com que ela tenha foco em algum objetivo.

O trabalho da psicologia esportiva deve ser um TRABALHO. Deve ser algo tão planejado quanto um modelo de jogo da equipe. Algo constante e contínuo. O psicólogo deve ser tratado como um membro da comissão técnica.

Um dos problemas do Futebol para a utilização da psicologia é que os clubes geralmente contratam psicólogos CLINICOS e não ESPORTIVOS. E então nem o próprio profissional escolhido sabe bem o que fazer em seu trabalho.

Outro problema é a falta de conhecimento de quem faz a gestão do processo: O TREINADOR.

O treinador é o LÍDER de todo processo! É ele que poderá construir todo o trabalho pautado em ajuda psicológica. No alto nível, só depende dele para conseguir seguir este caminho. Vamos lembrar que dentro de uma Abordagem Sistêmica, damos o mesmo valor para as vertentes físicas, técnicas, táticas e emocionais.

Recentemente vi uma matéria dizendo que o Sérgio Mallandro foi dar uma palestra motivacional para uma grande equipe do Futebol Brasileiro. Isso é LITERALMENTE uma piada. No entanto vejo outros bons trabalhos também, como uma matéria do site da ESPN (Clique aqui para ver a matéria) sobre o trabalho na seleção brasileira de Handebol feminino com a psicóloga Alessandra Dutra. Tive o prazer de conhecê-la este ano e assistir a uma palestra dela. Ela faz um trabalho de dia a dia com a seleção desde antes do último mundial, o qual nossas meninas foram as campeãs.

Alessandra Dutra e Handebol
Alessandra fazendo intervenções com a seleção de Handebol Feminino

Nesta reportagem gostaria de frisar a seguinte fala de Alessandra:
É igual à preparação técnica, tática, física e nutricional. O diferencial está no treinador, que consegue, através da sua liderança, absorver o que de mais valioso tem em todas as áreas para formar e manter uma equipe de excelência no cenário mundial. É ele que consegue aproveitar todas as ferramentas.” (Dizendo a respeito do treinador Morten Soubak)

No livro Do caos ao Topo: Uma Odisseia coxa-branca, de René Simões, há um relato parecido. Neste livro, onde o renomado treinador brasileiro narra sua trajetória e todo o seu planejamento durante a série B de 2007 no comando do Coritiba Foot ball Club, há um relato da então psicóloga da equipe, Flávia, o qual irei reproduzir aqui:
“É muito difícil um técnico dirigir-se à sala de uma psicóloga que conheceu a poucos dias para contar o que falou para os atletas e muito mais para perguntar o que ela achou. Confesso que foi só a partir desse momento que comecei a pensar que a pessoa certa para assumir aquele lugar havia chegado”. René relata durante o livro a ajuda constante e trabalho em conjunto com muitos departamentos do clube, principalmente o de psicologia.

Para encerrar, gostaria de deixar um exemplo com o qual aprendi estudando e lendo livros de psicologia esportiva. Muitos acham que passar filmes antes do jogo ou fazer uma preleção fantástica é o que irá motivar os jogadores para a partida. Certo? ERRADO! Isso são técnicas para ativar as pessoas, sendo que pode deixar umas mais ativadas e outras menos ativadas, pois isso é muito peculiar a cada um. Isso não é o Fundamental.

No entanto, para motivar um atleta deve-se trabalhar isso no dia a dia, criando um ambiente o qual ele sinta que faz parte, um ambiente o qual todos são importantes. Criar um ambiente que o fará acordar todos os dias e dar o máximo de si em cada treino e, consequentemente, em cada jogo. E isso, pelo que relatam todos os jogadores, foi algo que o Tite conseguiu fazer com maestria.

Vamos estudar, vamos buscar conhecimento! Mas vamos também compartilhar, ter humildade e saber que não sabemos de tudo.

Vamos ter humildade para valorizar o trabalho das pessoas ao nosso redor.

Vamos criar um ambiente para que a psicologia tenha espaço no nosso trabalho. E da maneira correta: Com um especialista na área nos ajudando.

Grande abraço

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3 opiniões sobre “A Psicologia e o Futebol

  1. Parabéns, concordo com o q li e estou convencido q o treinamento psicológico é fator determinante no resultado esportivo e desportivo.
    Zuma, educador físico.

  2. Parabéns pela matéria! Texto claro, preciso e sem perder o foco.

    É quase um sonho acreditar que mudaremos a cultura esportiva no Brasil, principalmente dos treinadores de futebol, mas sinto-me na obrigação de sonhar junto e apoiar todas as iniciativas para que isso aconteça.

    Estudar, trabalhar, treinar… tudo isso depende de uma coisa: a nossa motivação, o nosso objetivo ou até mesmo… o nosso sonho, se quisermos assim chamar.

    Continue trabalhando o lado humano no esporte, Rodrigo! Sua contribuição é muito importante e nos motiva a trabalhar com o mesmo objetivo.

    Abraço,
    Fábio Barros

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