A manipulação de regras nos treinamentos – Uma análise sobre as regras privativas

Cuidados com as regras que limitam as tomadas de decisão

Explicação de treinoTodo jogo possui regras e o jogo de Futebol não é diferente. E nos jogos que são usados para treinar nossas equipes também possuem regas. Nos modelos atuais de treinamento, os treinadores têm utilizado cada vez mais os jogos reduzidos (tanto em espaço, jogadores e regras) assim como jogos adaptados (tanto em espaço, jogadores e regras), entre outros tipos de jogos (nomenclaturas diferentes) que também possuem mudanças em relação as regras formais do jogo.

Essas alterações das regras nas sessões de treino servem para que seja possível direciona-lo para a melhoria daquilo que queremos que a equipe tenha alguma evolução. Ou seja, mudam-se ou criam-se regras para que aconteça muitas vezes alguma situação problema que é necessário melhorar a equipe. Isso porque se espera que no jogo, ao se deparar com essas situações, a equipe consiga resolver o que foi treinado.

Vamos a um exemplo: Nossa equipe está falhando muito nas bolas paradas de escanteio defensivo. Vamos imaginar que nas últimas 2 partidas sofremos 4 gols de escanteio. Então, para tentar resolver este problema, criamos um jogo em que toda vez que a bola sai pela lateral ou que é tiro de meta, ao invés de o jogo ser reiniciado nessas situações comuns, o jogo deverá ser reiniciado com uma cobrança de escanteio a favor da equipe que teria o arremesso de lateral ou o tiro de meta. Ou seja, com essa adaptação da regra, conseguiremos ter em um jogo (treino) uma grande ocorrência de escanteios, sendo possível corrigir algumas falhas, melhorar o posicionamento, entre outras coisas.

Na literatura atual sobre treinamento de futebol (mais encontrado em livros de periodização tática), essa alteração de regras serve para atingir o princípio das propensões (um dos princípios metodológicos da Periodização Tática), ou seja, conseguir que o que precisa ser treinado aconteça muitas vezes na sessão. Essas repetições, em conjunto com as intervenções do treinador, podem gerar as melhoras esperadas.

No entanto, outro ponto que vem sendo amplamente discutido no futebol é a importância de se treinar a tomada de decisão do jogador. Isso porque durante o jogo, todos os atletas devem tomar decisões, que serão expressas em ações. Geralmente, os atletas com mais sucesso são aqueles que tomam boas decisões e que as executam muito bem. Quanto melhor é a sua escolha e melhor é a sua ação, melhor é o jogador.

Pois bem, vamos unir os dois elementos para começarmos a reflexão a que este texto se propõe. Já que queremos ter cada vez mais atletas inteligentes dentro do jogo de futebol, temos que criar treinos que os fazem pensar e tomar decisões o tempo todo, ou melhor, treinos que os façam tomar decisões mais eficazes para aquela situação.

E pensando nessa ideia de treino é que eu quero falar sobre regras, que muitos treinadores usam, mas que em minha opinião não permitem que o atleta desenvolva uma melhor tomada de decisão. Geralmente são regras que privam ou limitam as escolhas do jogador para as situações que ele vai encontrar no jogo. Esse tipo de regra eu chamo de regra privativa.

Vamos a um exemplo de regra privativa: O atleta pode somente dar 2 toques na bola, se ele der 3 toques na bola o jogo para e a bola passa a ser de posse da equipe adversária.

Agora vamos tentar enxergar a seguinte situação: O atleta com a bola já deu 1 toque para dominar ela. Ele se encontra em uma situação de contra ataque, mas está um pouco longe do gol e não possui nenhum outro colega a sua frente ou ao seu lado para tocar a bola. Como ele somente pode dar mais 1 toque, ele é obrigado a retardar o contra ataque ou então é obrigado a tocá-la para trás, interrompendo então uma jogada com grande chance de resultar em uma finalização ao gol adversário.

Essa é uma situação que já aconteceu comigo em diversas sessões de treino e até mesmo em aulas práticas que já ministrei em diversos cursos. E é uma situação que eu paro a jogada e faço a mesma reflexão: Será que retardar o contra ataque ou parar ele e tocar para trás seria a melhor decisão que o jogador poderia tomar? Ou será que na partida oficial ele deveria seguir em frente, conduzir a bola e finalizar em gol?

Como a regra é privativa, ou seja, SÓ PODE DAR 2 TOQUES, ela limita algumas decisões que os atletas possam tomar em algumas situações. E digo isso, pois ao repetir diversas vezes a ação de dar somente 2 toques na bola, provavelmente o atleta irá repeti-la em uma partida, pois acabou se tornando um hábito. Isso já aconteceu comigo e no momento eu achava que o erro era do jogador. Até eu perceber que o grande erro era meu, pois fui eu que o condicionei a tomar esse tipo de decisão através do meu treino.

Uma sugestão para não privar o atleta de tomar decisões e tentar trabalhar com poucos toques na bola seria dar 1 ponto para o adversário a cada vez que o portador da bola dê mais de 2 toques nela. E como consequência disso, o gol passaria a valer 5 pontos ao invés de 1 ponto. Pois a ideia é que vença o treino quem fizer mais gols (para manter a lógica do jogo de futebol) e não quem usa mais os 2 toques na bola. No entanto, a equipe que der muitos toques na bola, irá dar muitos pontos ao adversário, fazendo que seja vencedor a equipe que se utilizou mais dos 2 toques como MEIO para conseguir fazer seus gol.

Vamos ao exemplo: as duas equipes fizeram 2 gols cada. Então o placar estaria 10 x10. No entanto, a Equipe A por 3 vezes deu mais de 2 toques na bola, então a equipe B ganhou 3 pontos. Total do placar = Equipe A 10 x 13 Equipe B.

Com essa alteração da regra dos dois toques, é possível que o jogador na situação de contra ataque no exemplo dito anteriormente, possa escolher continuar conduzindo a bola, dar 1 ponto para seu adversário, e tentar fazer um gol para a sua equipe. Caso ele consiga, ele teria dado 1 ponto para o adversário, mas em troca teria conquistado 5 pontos para sua equipe, tendo sido esta  uma melhor escolha para a situação.

Podemos citar outros exemplos de regras privativas, como SÓ VALE GOL PELAS LATERAIS DO CAMPO. Esse tipo de regra faz com que um gol trabalhado pelo corredor central não seja correto. Então sua equipe, se estiver em boas condições de finalizar através de uma jogada por dentro, não possa finalizar, sendo que seria o mais adequado para esta situação. Em contra partida, a defesa sabe que não irá sofrer pelo meio e pode começar a abrir muito, buscando fechar somente os corredores laterais. Com isso você estará fazendo a sua defesa ferir um princípio básico do jogo de futebol, que é proteger a meta fechando o corredor central.

Outro exemplo é usar da regra de que só vale fazer o gol com finalização “de primeira”. Aí você irá se deparar com o atleta que está dentro da pequena área, dominou a bola e ao invés de chutar ao gol ele deverá tocar para trás. Já aconteceu isso comigo em treino e depois refletiu no jogo.

Fica aqui esta reflexão! Não há certo e nem errado! Há apenas maneiras diferentes de se pensar o futebol…

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Vamos fazer um Futebol Inteligente! Um futebol pensado diferente!

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3 opiniões sobre “A manipulação de regras nos treinamentos – Uma análise sobre as regras privativas

  1. Excelente reflexão Rodrigo Bellão!
    Em meu dia dia de treinamento, conforme aconteceu contigo também obtive algumas dificuldades com regras privativas.
    Portanto, não trabalho mais nesta perspectiva de privação e sim liberdade de escolha por parte do atleta é da equipe.
    Já aproveitando seus exemplos, a questão da quantidade de toques na bola há algum tempo já trabalho da forma que você sugeriu no texto, pois o jogador toma a decisão de às vezes na necessidade ele excede a quantidade de toques mas para criar um chance clara de gol o qual sua equipe pode dar um ponto ao adversário mais após fazer o gol ainda conquista um saldo positivo de 4 pontos.
    No exemplo que você deu de finalizações eu não privaria o atleta e sim daria uma pontuação maior quando o gol fosse de jogada de fundo e quando fosse de primeira. Neste caso o jogador e equipe dentro da disposição tática defensiva adversária e com os erros individuais e coletivos é que a equipe e/ou jogador que ataca passa por tomar a decisão do que será melhor fazer pro momento.
    Portanto, em minha modesta visão o simples fato de não privar e sim dar uma pontuação maior ao que se quer potencializar na atividade ou sessão de treino já estaremos gerando comportamentos individuais e coletivos que serão utilizados nos jogos (amistosos ou competição) sem deixar de dar a opção de se escolher uma outra ação que para o momento seria mais inteligente e adequada.
    Obrigado!

  2. Excelente post! Costumo pontuar a mais determinadas ações que quero que ocorra mais vezes. O treino de dois toques citado no texto ainda pode condicionar o defensor a realizar a marcação de uma determinada maneira. Acredito que os dois toques assim como algumas regras privativas possam contribuir para o aprendizado de alguns conceitos. No entanto, as regras privativas devem estar dentro de um planejamento e não serem utilizadas a revelia o que causaria comportamentos indesejados por parte dos jogadores. Post muito bom!

  3. Olá professor, gostaria de tirar uma dúvida. Quais são os formatos de treino para aperfeiçoamento da linha de impedimento? Pois estou com dificuldade de implementar no grupo sub 15. Agradeço antecipadamente pela atenção.

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